Qual a decisão mais importante da vida de uma pessoa? E a sua, qual foi?
Para muitos, é quando decide-se qual profissão seguir. Qual faculdade fazer. Onde vai morar, senão em sua cidade natal.
Para outros, é o início de uma nova família. Aquele relacionamento que ficou sério, e o grande passo de propor o casamento. Ou talvez a decisão de ter filhos.
Será?
Talvez seja o início de um novo negócio. Ou resolver mudar de profissão aos 35 anos, saindo de sabático, como eu fiz.
Talvez...
Mas talvez não. Ontem, a decisão mais importante de minha vida foi uma curva à esquerda. Uma curva aberta, um caminho que eu já havia feito outras vezes. Muito cedo, num belo dia de sol, a caminho do golfe. Certamente uma decisão que, se não mudou minha vida, poderia ter destruído grande parte dela, ou mesmo terminá-la.
Logo depois da curva, veio o assalto... 4 homens armados, descendo do morro. Um em frente ao carro, uma pistola apontada para o parabrisas. Um segurando o trânsito no caminho inverso. Um em cada janela.
Tentativas de manter a calma, pavor, o cano do 38 na cara. Vão-se os telefones, as carteiras, e quando olho para trás, meu irmão não está mais no carro. Ouço um estampido, tenho certeza que é um tiro. Meu irmão não está mais no meu campo de visão. A vida muda em uma curva...
Graças a Deus, ouço a voz dele. Ele está bem, não foi um tiro. Foi a coronhada no carro, que é uma caixa acústica. Alexandre, nosso amigo, finalmente consegue abrir a janela. Levam-lhe o tênis e o relógio.
Deixam-nos ir. Acabou o pesadelo.
200 metros à frente... 3 homens. Garotos.
Modus Operandi não muda. Pistola no parabrisas, revolvers nas janelas. Mas já não temos mais o que entregar. Estamos sem as roupas de cima, descalços. Vamos morrer. Pedem para abrir o porta-malas. Vão-se as bolsas de golfe. Mandam que sigamos em frente.
No final da avenida (mais 300 metros), há uma base da PM. Paramos e pedimos socorro, os policiais olham para nosso grupo como se fôssemos idiotas. Não como vítimas. Não podemos usar o telefone. Eles são 7, e seis saem em duas viaturas. Olhamos em volta, estamos do lado do morro onde vivem os criminosos, relatando o que foi dito ao único policial que ficou. Ele tem um revolver, 6 cartuchos. Os bandidos tinham 7 armas. Continuamos com medo. 5 minutos depois, voltam as viaturas e relatam tudo estar normal. Pedimos uma escolta. Não queremos fazer B.O., não queremos ficar ali mais nenhum segundo. Saímos a toda. Catatônicos. Despidos de parte das roupas, de todo o direito, de toda a cidadania e de qualquer gosto de ser brasileiros que restava. Este país está podre, e não é mais nossa casa. Aqui vivemos, presos, mas não mais nossa terra é nosso lar.
A noite, reencontro minha família. Choro. Deixo o desespero sair.
Minha vida poderia ter acabado. Morto, sem um irmão, ou sem um amigo. Tenho todos, mas algo ficou naquele lugar. A principal decisão da minha vida foi tomada em poucos segundos. Os efeitos ainda não são claros.
Cada decisão conta.
The Turtle