segunda-feira, 8 de julho de 2013

Curvas...



Qual a decisão mais importante da vida de uma pessoa? E a sua, qual foi?

Para muitos, é quando decide-se qual profissão seguir.  Qual faculdade fazer.  Onde vai morar, senão em sua cidade natal.

Para outros, é o início de uma nova família.  Aquele relacionamento que ficou sério, e o grande passo de propor o casamento.  Ou talvez a decisão de ter filhos.

Será?

Talvez seja o início de um novo negócio.  Ou resolver mudar de profissão aos 35 anos, saindo de sabático, como eu fiz.

Talvez...

Mas talvez não.  Ontem, a decisão mais importante de minha vida foi uma curva à esquerda.  Uma curva aberta, um caminho que eu já havia feito outras vezes.  Muito cedo, num belo dia de sol, a caminho do golfe.  Certamente uma decisão que, se não mudou minha vida, poderia ter destruído grande parte dela, ou mesmo terminá-la.

Logo depois da curva, veio o assalto... 4 homens armados, descendo do morro.  Um em frente ao carro, uma pistola apontada para o parabrisas.  Um segurando o trânsito no caminho inverso.  Um em cada janela.

Tentativas de manter a calma, pavor, o cano do 38 na cara.  Vão-se os telefones, as carteiras, e quando olho para trás, meu irmão não está mais no carro.  Ouço um estampido, tenho certeza que é um tiro.  Meu irmão não está mais no meu campo de visão.  A vida muda em uma curva...

Graças a Deus, ouço a voz dele.  Ele está bem, não foi um tiro.  Foi a coronhada no carro, que é uma caixa acústica.  Alexandre, nosso amigo, finalmente consegue abrir a janela.  Levam-lhe o tênis e o relógio.

Deixam-nos ir.  Acabou o pesadelo.

200 metros à frente... 3 homens.  Garotos.  Modus Operandi não muda.  Pistola no parabrisas, revolvers nas janelas.  Mas já não temos mais o que entregar.  Estamos sem as roupas de cima, descalços.  Vamos morrer.  Pedem para abrir o porta-malas.  Vão-se as bolsas de golfe.  Mandam que sigamos em frente.

No final da avenida (mais 300 metros), há uma base da PM.  Paramos e pedimos socorro, os policiais olham para nosso grupo como se fôssemos idiotas.  Não como vítimas.  Não podemos usar o telefone.  Eles são 7, e seis saem em duas viaturas.  Olhamos em volta, estamos do lado do morro onde vivem os criminosos, relatando o que foi dito ao único policial que ficou.  Ele tem um revolver, 6 cartuchos.  Os bandidos tinham 7 armas.  Continuamos com medo.  5 minutos depois, voltam as viaturas e relatam tudo estar normal.  Pedimos uma escolta.  Não queremos fazer B.O., não queremos ficar ali mais nenhum segundo.  Saímos a toda.  Catatônicos.  Despidos de parte das roupas, de todo o direito, de toda a cidadania e de qualquer gosto de ser brasileiros que restava.  Este país está podre, e não é mais nossa casa. Aqui vivemos, presos, mas não mais nossa terra é nosso lar.

A noite, reencontro minha família.  Choro. Deixo o desespero sair.

Minha vida poderia ter acabado.  Morto, sem um irmão, ou sem um amigo.  Tenho todos, mas algo ficou naquele lugar.  A principal decisão da minha vida foi tomada em poucos segundos.  Os efeitos ainda não são claros.

Cada decisão conta.

The Turtle

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